Bentê Brasil - Manifesto
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A BENTÊ começou num caderno.
Não era projeto, não era plano de negócio. Era um monte de pergunta que não cabia em lugar nenhum: quem eu sou? qual o sentido da vida? quem eu sou pro mundo? o que fica de mim quando eu não estiver mais?
Pergunta dessas não tem resposta pronta e ninguém te entrega uma. E se você não faz nada com elas, elas fazem alguma coisa com você.
Escrever, no começo, era só um jeito de não adoecer.
Nise da Silveira virou uma das minhas maiores referências, o nome que eu ia buscar quando faltava chão. Numa época em que a psiquiatria oferecia choque e lobotomia pra calar o que gritava dentro das pessoas, ela ofereceu tinta, pincel e barro. Pra virar forma. Porque o que não encontra forma vira sintoma. O que não sai pela mão sai pelo corpo, pela raiva.
O caderno era isso. Sem ateliê, sem diagnóstico, sem ninguém olhando.
E antes dela, e muito antes de mim, tem gente que passou a vida inteira em cima do mesmo assunto: que a angústia é o preço de ser livre, que sofrimento sem sentido é o que quebra o sujeito, que ou você inventa o seu próprio valor ou passa a vida obedecendo o dos outros.
O caminho da BENTÊ é simples de dizer e difícil de fazer: observar, absorver, devolver.
Observar é olhar pro mundo com o olho aberto. Pras pessoas, pra rua, pra fé, pra arte, pra história, pra vida como ela é de fato.
Absorver é deixar entrar. É aceitar que aquilo vai doer um pouco, vai revirar, vai ficar dias mastigando na cabeça antes de virar qualquer coisa.
Devolver é o que a gente faz aqui. Digerido, com o nosso corte, com a nossa mão. O que a gente encontra, a gente conta.
Eduardo Marinho é uma grande referência para essa estrutura.
Boa parte do que a gente encontra tem cheiro, sotaque e poeira daqui.
Chamam isso de brasilidade vernacular: a identidade que ninguém sentou numa sala pra projetar. Ela nasce da necessidade de se comunicar, de vender, de rezar, de sobreviver. É a placa pintada à mão do açougue. É o santo de gesso no painel do caminhão. É a gíria que virou língua, o carro de som, a fita do Bonfim amarrada com três nós, a laje que virou sala.
É o Brasil que tentam limpar da foto antes de mostrar lá fora.
Mas aqui o Brasil é chão, não é teto. É de onde a gente fala, não é sobre o que a gente fala. A base é daqui. A entrega é a nossa visão de mundo.
Isso não cabe num formato só.
Às vezes vira peça. Às vezes vira texto, pesquisa, vídeo, conversa, um muro pintado, coisa que ainda nem existe. A gente não é fiel ao formato. A gente é fiel ao motivo: contar o que importa, e trazer pra cima o que o mundo tenta empurrar pra baixo.
Tudo que sai daqui carrega uma camada embaixo. Uma história, um símbolo, uma verdade. Se não carregar, não sai.
E tem uma pergunta que a gente não larga: quantos vencem se você vencer?
Porque a vitória que cabe numa pessoa só é pequena demais pro tamanho do esforço. Se o que a gente constrói não puxa mais gente junto, não serve.
Uma última coisa, e essa é só minha.
Já tentei outros negócios. Alguns deram errado de um jeito que ensina. O que sobrou foi uma vontade simples: criar, e conseguir olhar pro que criei sem desviar o olho. Honesta comigo antes de ser honesta com você.
Conheci o fundo do poço. Não recomendo, mas também não minto: foi lá embaixo que eu entendi que aquilo que eu vinha ignorando era, talvez, exatamente o que eu deveria estar fazendo naquele momento.
Fui forjada na dor. Parte dela eu mesma criei, e encaro. Parte eu não escolhi e nem tive como escolher. E teve a pior de todas, que é ver quem eu amo sofrendo, sem nada pra mudar aquilo.
Ainda erro muito. Não parei, e sei que vou errar em outras coisas. Mas aprendi que quando eu foco em criar, o outro lado, aquele que eu não gosto e que sei que existe, perde espaço. Não some. Perde espaço. É negociação diária.
A BENTÊ é o recomeço. É abraçar a sombra em vez de fingir que ela não anda comigo, e ver o que acontece quando o foco vira impactar gente de verdade, fazer as pessoas se conectarem, ter sentido nas coisas.
Vou saber que deu certo quando isso começar a acontecer. Não antes.
Por isso o bem-te-vi.
É o pássaro que anuncia: proteção, fartura, começo novo. Ele não é raro, é presente. Livre, adaptável, teimoso. Enfrenta bicho muito maior que ele sem pensar duas vezes pra defender o ninho. E é fiel: aparece todo dia, com o mesmo canto.
A BENTÊ quer ser isso. A marca que senta do lado, não a que fala de cima. Que te vê de verdade. Que tá aqui por curiosidade, por vontade de cavar, por amor ao que é real.
E que volta amanhã.
Se você chegou até aqui, alguma coisa nesse canto te reconheceu.
Bem te vi.